Vigilância Genômica e Resistoma em UTIs: Desvendando Klebsiella pneumoniae e Acinetobacter baumannii com Dashboard Interativo

Genômica Bacteriana Bioinformática Clínica R Shiny Resistência Antimicrobiana (AMR)

Repositório de dados: NCBI BioProject PRJNA1185159 | SRA Study SRP545647

1. Introdução: O Desafio da Resistência Antimicrobiana nas UTIs Brasileiras

A resistência antimicrobiana (AMR) em patógenos bacterianos oportunistas é uma das ameaças mais severas à saúde pública global. No ambiente de Terapia Intensiva (UTI), onde pacientes imunocomprometidos e em uso de dispositivos invasivos enfrentam infecções hospitalares graves, bactérias Gram-negativas multirresistentes como Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemase (KPC) e Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos (CRAB) impõem desfechos clínicos desafiadores e escassez de opções terapêuticas.

Contudo, monitorar a disseminação desses patógenos apenas por testes fenotípicos tradicionais já não é suficiente. É preciso investigar a arquitetura genômica das cepas circulantes: quais clones estão se expandindo? Quais determinantes de resistência estão em plasmídeos ou integrons? Como as mutações cromossômicas afetam antimicrobianos de última linha, como a colistina?

Neste artigo, compartilhamos os bastidores e os achados genômicos de um amplo estudo multicêntrico prospectivo conduzido em seis hospitais terciários de São Paulo, coordenado pelo Prof. Dr. Eduardo Alexandrino Servolo de Medeiros (Disciplina de Infectologia / LEMC / UNIFESP), no qual atuei diretamente na curadoria genômica, auditoria bioinformática e desenvolvimento das ferramentas analíticas. Para tornar esse volume expressivo de dados acessível, construímos um dashboard analítico completo, que disponibilizamos interativamente aqui no blog!

Felipe Alberto Lei

Fundador da LogikBioinfo. Bioinformaticista especializado em genômica bacteriana, resistência antimicrobiana e desenvolvimento de ferramentas analíticas.

2. A Casuística Multicêntrica e o Pipeline de Bioinformática

O estudo acompanhou UTIs de seis grandes centros hospitalares paulistas: Hospital São Paulo (HSP), Hospital Estadual de Diadema (HED), Hospital Municipal de Barueri (HMB), Hospital Geral de Pirajussara (HGPI), Hospital Geral de Guarulhos (HGG) e Hospital Geral de Pedreira (HGPE).

A partir de 290 coletas brutas iniciais de vigilância ativa (swabs retais) e culturas diagnósticas, aplicamos critérios estritos de controle de qualidade (QC) e inclusão epidemiológica, consolidando uma coorte definitiva de 236 isolados com Sequenciamento de Genoma Completo (WGS) na plataforma Illumina NextSeq 1000:

236

isolados WGS

144

K. pneumoniae

92

A. baumannii

O Papel Decisivo da Curadoria em Bioinformática: Lições Práticas

Na rotina da bioinformática clínica, pipelines automatizados "fora da caixa" frequentemente produzem armadilhas que apenas uma curadoria especializada consegue desvendar:

  1. A armadilha do gene mgrB na resistência à colistina: em K. pneumoniae, a inativação de mgrB é a principal causa de resistência a polimixinas. No entanto, ferramentas padrão baseadas em alinhamento de SNPs pontuais acusavam que a maioria dos isolados resistentes não tinha mutação em mgrB. Ao inspecionar a cobertura de bases, identificamos que 28 isolados resistentes tinham 0% de cobertura no gene mgrB — ou seja, haviam sofrido deleção estrutural completa ou interrupção por sequências de inserção (IS). Ao corrigir o artefato, revelou-se que 77,8% (35/45) dos isolados resistentes à colistina possuem inativação funcional de mgrB!
  2. Detecção e exclusão de quimeras/contaminações: o isolado HED-117-ACB chamava a atenção por exibir 304 genes de virulência (contra a média de 111 de Acinetobacter). Uma auditoria profunda revelou a presença de vias completas de biossíntese de piocianina, pioverdina e sistemas de secreção tipo III exclusivos de Pseudomonas aeruginosa. Tratava-se de contaminação microbiológica pré-sequenciamento que, se não fosse auditada, distorceria gravemente as publicações do grupo.
  3. Harmonização internacional de breakpoints (BrCAST/EUCAST vs. CLSI): alinhamos os laudos entre a norma brasileira da ANVISA (BrCAST v14.0) e o padrão internacional (CLSI M100). Para colistina em A. baumannii, por exemplo, a categoria "Sensível" não existe no CLSI (CIM ≤ 2 µg/mL é classificada como Intermediário), exigindo relatórios duplos para compatibilidade com periódicos estrangeiros de alto impacto.

3. Principais Achados Biológicos Revelados pelo WGS

Klebsiella pneumoniae: a dicotomia clonal ST11 vs. ST258

  • ST11 (41,0%): o clone de maior prevalência no estudo, amplamente disseminado no HGPI, HED e HMB. Caracteriza-se por uma perigosa combinação de multirresistência e hipervirulência: 61% dos isolados ST11 são resistentes à colistina e coabrigam a ilha móvel ICEKp10, codificando yersiniabactina (ybt) e colibactina (clb).
  • ST258 (18,1%): linhagem clássica associada à variante blaKPC-2* (com mutação conservada G822T). Notavelmente, 100% dos isolados ST258 mantiveram sensibilidade total à colistina (CIM = 1 µg/mL).
  • Carbapenemases: predomínio quase absoluto de blaKPC-2 / blaKPC-2* (95,8%), com detecção de blaNDM-1 em 2,1% dos isolados.

Acinetobacter baumannii: o alerta do cluster NDM-1 + armA em Diadema

  • Oxacilinases dominantes: blaOXA-23 foi identificado em 78,3% dos isolados e blaOXA-72 em 20,7%.
  • Cluster de emergência no HED: detectamos um agrupamento clonal de alto risco no Hospital Estadual de Diadema composto por 6 isolados do clone internacional ST2 (Global Clone 2 - GC2) coprodutores de blaNDM-1 + blaOXA-23/66.
  • 100% de coocorrência com armA: todos os isolados NDM-1 coabrigam a 16S rRNA metiltransferase armA, conferindo pan-resistência aos aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina e tobramicina com CIM > 64 µg/mL).

4. O Dashboard Interativo

Para transformar essas análises em uma experiência visual e dinâmica, desenvolvemos um dashboard analítico. A versão completa foi construída em R Shiny com o framework moderno bslib (tema Flatly), gráficos interativos via plotly e tabelas reativas com DT. Abaixo, disponibilizamos uma versão web leve do mesmo painel, com os dados dos 236 isolados, que roda diretamente no navegador.

Funcionalidades do dashboard

  1. Filtros dinâmicos reativos: filtre instantaneamente por espécie (K. pneumoniae, A. baumannii) ou por centros hospitalares específicos.
  2. Indicadores epidemiológicos: total de amostras filtradas, casos de KPC, oxacilinases, NDM-1 e isolados resistentes à colistina.
  3. Módulos por espécie: distribuição de STs, colistina por clone e status detalhado de mgrB.
  4. Tabela de dados pesquisável: acesso individual a cada um dos 236 isolados, com busca global e ordenação por qualquer coluna.

Experimente o dashboard interativo

Dados: Manifesto Geral Consolidado (N = 236), Projeto Multicêntrico UNIFESP/LEMC. Nenhum dado identificável de pacientes é exibido. Fenótipo de colistina em A. baumannii: S (BrCAST) / I (CLSI) para CIM ≤ 2 µg/mL.

5. Como Executar e Publicar a Aplicação Shiny

Se você deseja executar a versão R Shiny do dashboard em sua própria máquina ou implantá-la no shinyapps.io, o código está totalmente preparado e modularizado.

Execução local no R / RStudio

# Instalar os pacotes necessários
install.packages(c("shiny", "bslib", "DT", "plotly", "rsconnect", "bsicons"))

# Executar a aplicação
shiny::runApp("app.R")

Publicação no shinyapps.io

Basta inserir suas credenciais do shinyapps.io (Account → Tokens → Show):

library(rsconnect)

rsconnect::setAccountInfo(
  name   = "logikbioinfo",
  token  = "SEU_TOKEN",
  secret = "SEU_SECRET"
)

rsconnect::deployApp(
  appDir        = getwd(),
  appPrimaryDoc = "app.R",
  appName       = "amr-genomics-multicenter-unifesp"
)

6. Conclusão e Serviços LogikBioinfo

A integração entre microbiologia clássica, sequenciamento de última geração e bioinformática curada é o padrão-ouro contemporâneo para pesquisas de alto impacto e vigilância em saúde. Casos como a elucidação do mecanismo de mgrB e a identificação do cluster NDM-1 em Diadema evidenciam que a análise bioinformática detalhada vai muito além da geração de tabelas brutas: ela transforma sequências de nucleotídeos em conhecimento epidemiológico acionável.

Precisa de apoio bioinformático no seu projeto de pesquisa?

Na LogikBioinfo, oferecemos consultoria científica completa para pesquisadores, grupos de pesquisa e laboratórios clínicos:

  • Montagem de genomas e análise de resistoma/viruloma (WGS)
  • Análises filogenômicas e pangenômicas
  • Desenvolvimento de dashboards personalizados em R Shiny e Python (Streamlit/Dash)
  • Submissão e curadoria de dados em bancos públicos (NCBI BioProject, BioSample, SRA, GenBank)
  • Capacitação prática em bioinformática com dados reais do seu projeto
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